Kosovo: Fragmentação Europeia na ordem do dia


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KOSOVO:
FRAGMENTAÇÃO EUROPEIA NA ORDEM DO DIA









1- O problema de Kosovo trouxe para a agenda mundial uma questão que estava em "banho-maria" na Europa e se "empalhava" em conflitos de "baixa intensidade" em vários pontos da Ásia e de África.

Ele agudizou, precisamente, as relações internacionais, porque a questão kosovar está "encravada" numa realidade que se torna cada vez mais evidente: a próxima grande confrontação geo-estratégica está ser novamente "puxada" para a Europa e os protagonistas estão a posicionar-se, embora, aparentemente, se diga e jurem ser aliados: A União Europeia, potência nascente, e os Estados Unidos, potência militar, mas em decadência económica.

2- Curiosamente ou não, quem empunhou, com dentes e balas, a bandeira da independência do Kosovo foram os Estados Unidos, que organizaram, com a cumplicidade de alguns dos principais actuais lideres políticos europeus, toda a logística e cenários internos pró-separatistas desse território, o qual para conseguir, agora, a sobrevivência política, só o poderá fazer como país ocupado, sob a forma de protectorado dessa entidade estatal externa, que utiliza, no terreno, a sua estrutura militar imperial, chamada NATO.

2 - Ora, isto traz água no bico: ao longo das últimas décadas, os EUA nunca foram "fanáticos" da defesa de interesses nacionais de territórios com identidades políticas e culturais que queriam ser independentes.

Pelo contrário, tentaram sufocar, com genocídios dignos de um holocausto nazi, as aspirações nacionais de países, como o Vietname, Laos e o Cambodja, ou foram e/ou são cúmplices de ocupações coloniais ou neo-coloniais, como Timor-Leste, a Irlanda, o Saará Ocidental, a Palestina, para não referir na actualidade, a sua política imperial de ocupação no Iraque e Afeganistão, ou para não falar os projectos maquiavélicos que estão a engendrar na América Latina e em África.

3- A Europa tem problemas reais, tradicionais e ancentrais de nacionalidades na maioria dos seus Estados, problemas esses ainda intricados em resíduos políticos da Idade Média. Espanha, Reino Unido, Bélgica, Alemanha, Itália, Grécia e França, são Estados forjados numa argamassa de Nações e territórios, com culturas e línguas ou dialectos próprios, que lhe dão uma coerência imediata de separação, se o cimento frágil que actualmente os mantém se estilhaçar por qualquer motivo.
A velha Europa tentava (e tenta) resolver essa questão, nos últimos 30 anos, com formas de poder autonómico, mais ou menos alargados, com uma ideia estratégica de os dirimir ao construir, a prazo, uma nova superestrutura multinacional europeia, que se está edificar sob os alicerces de uma única estrutura económica, estrututura esta que, apesar de altos e baixos, se está a consolidar nos últimos 40 anos.

Nessa superestrutura europeia, a sua actual fase de crescimento natural está virada para Leste. Os esforços feitos para enquadrar, atrair, abrir caminho a esses Estados orientais europeus forjaram-se nos últimos 10 anos pela via negocial da economia, juntando-os na União Europeia. Essa direcção, numa fase mais avançada, possivelmente muito mais morosa e complexa, poderá atingir a própria Rússia.

4 - A União Europeia é, hoje, a principal potência económica mundial.
O seu modelo de construção, e mesmo de organização superestrutural, é aquele que está a servir de "guia orientador" para outras zonas do Globo que se querem reorganizar e desenvolver um novo crescimento civilizacional, como o caso da América Latina, com o MERCOSUL, e África, com a União Africana. E não sob o signo da democracia oligárquica dos EUA.
(De salientar, que os modelos de democracias europeias e norte-americanas surgem e implantam-se, seguindo concepções de vivência parlamentar e partidária diversificadas. Enquanto a Europa vai beber a sua vivência democrática a uma revolução política no século XVIII, a francesa, que destrói um regime absolutista, e é percorrida desde então por muitas revoluções, que lhe modificaram, por vezes, radicalmente as superestruturas de poder, os Estados Unidos fundam a sua concepção de Estado nos escombros de uma separação colonial, que, praticamente desde a sua génese, se sustenta, sem sobressaltos, na alternância das suas classes dominantes. Ou seja, os debates ideológicos, políticos e práticos nos dois continentes são de uma diversidade evidente).

5 - Na situação actual na Europa, o ponto de partida do relacionamento da actual União Europeia e dos Estados Unidos partem de pressupostos políticos e económicos divergentes.
Enquanto que a UE quer formar um Continente estatal político (federal ou confederal) que abranja o que esteja na "alçada" do que se possa considerar Europa, ainda com algum território exterior.
Para os Estados Unidos, a Europa de Leste, incluindo a Rússia e os paises ribeirinhos que a circundam, são um "espaço vital" no domínio de matériais-primas e mercados, que consideram como centros nevrálgicos da sua manutenção como grande potência imperialista.

A União Europeia, com pés de lã e paciência, está a procurar ocupar esse espaço, sem conflitos.

Na realidade, até aos dias de hoje, uma Europa alargada sob a batuta de um poder unificado só foi conseguida ou tentada pela via da conquista brutal e imperialista. Desde os tempos do Império Romano até à aventura nazi da Alemanha na II Grande Guerra, passando pelo império napoleónico.
O que a UE está a conseguir, com eficácia no domínio da economia, está assente em fraquezas, pois não tem ainda e - fundamentalmente - uma diplomacia e as umas Forças Armadas únicas.

Não se nota uma vontade política e prática dos Estados europeus mais preparados militarmente, em congregar forças na constituição de uma política externa e um Exército comuns que coloquem uma travão às intromissões constantes e arrogantes do seu "aliado" do outro lado do Continente nas relações intereuropeias.

Ora, na minha opinião, a NATO, com a sua orientação dominante e avassaladora norte-americana, coarcta qualquer tentativa de forjar uma unidade diplomática e militar europeia. O seguidismo europeu neste campo só lhe pode trazer reveses políticos e estratégicos.

6- A abertura da frente de Kosovo por parte dos EUA é uma peça da sua estratégia para restringir e fragmentar mesmo a unidade europeia.
A questão das nacionalidades na Europa vai, pois, ganhar actualidade e pertinência entre os Estados europeus, que contêem no seu seio as questões das nacionalidades. Quais os argumentos para não aceitar então a separação da Escócia, do País Basco, ou o desmembramento de Bélgica, ou o próprio retalhamento da Alemanha pulverizada pelos Estados regionais?

Os dirigentes europeus que estão a seguir, cegamente, a estratégia norte-americana, dando-lhe plena cobertura através da NATO, serão cúmplices conscientes de uma provável desagregação da União Europeia.

Se a Europa hostilizar a Rússia, em nome da política imperial dos Estados Unidos de se aproximar em força das suas fronteiras, então poderão vir a engendar-se, a um prazo mais ou menos longo, em território europeu, os rumores de guerra, cuja corrida armamentista e a procura de alianças militares se estão já a constituir na zona do Mar Cáspio e nos próprios Balcãs.