A Ditadura de João Franco e a autoria moral e política de D. Carlos


D.Carlos






A DITADURA DE JOÃO FRANCO
E A AUTORIA MORAL E POLÍTICA DE D.CARLOS.















De um modo muito claro a responsabilidade moral e política do Rei D. Carlos na ditadura de João Franco pode estabelecer-se, inequivocamente, porque quando Lisboa ardia, o Rei pacatamente caçava em Vila Viçosa, consumindo muito do erário público, e revelando um desinteresse gravíssimo pela condução dos negócios do Reino, o que põe em causa a ideia de um Rei reformador, que neste período de ditadura só o seria, pelo apoio incondicional que deu ao Presidente do Ministério.

João_Franco

Em Novembro de 1907, o Rei, numa entrevista ao “Le Temp’s de Paris”, declara:

“…nos últimos tempos da legislatura a situação tornava-se impossível…era necessário acabar com aquela porcaria –não há outro termo. Aquilo não podia durar. Íamos não sei para onde…Dei a Franco os meios de governar…Precisava de uma vontade sem fraquezas para levar as minhas ideias a bom termo ( sublinhe-se).

Franco foi o homem que desejava (sublinhe-se)….A sua inteligência iguala a sua vontade….Estamos de acordo, plenamente de acordo (não há margem para dúvidas). Trabalhamos juntos. Tem toda a minha confiança (confirmação para afastar qualquer dúvida que pudesse subsistir).




Contrariamente às intenções que me atribuem, entendo mantê-lo. Estou muito satisfeito com ele. (reforça até à exaustão, muito para além da mera conveniência diplomática, o seu apoio a Franco, como se ele fosse o mero braço executório do seu pensamento, o seu clone – diríamos hoje - no ministério). Isto vai bem!....

D. Carlos reafirma a sua convicção no sucesso da ditadura, porque não acredita que possa haver revoluções sem o contributo do Exército, e considera que este lhe é fiel . Proclama ainda o fim do regime Constitucional, e a sua firme intenção de prosseguir a Ditadura.

Após esta entrevista, segundo Paulo Madeira Rodrigues, muitos monárquicos rebelam-se e vão engrossar as fileiras dos republicanos Augusto José da Cunha, par do Reino, várias vezes ministro e presidente da Câmara dos Pares, e Anselmo Braancamp Freire, par do Reino e escritor e muitas outras destacadas figuras políticas da monarquia.

Enquanto o país vivia numa atmosfera de mal-estar e revolta com João Franco a prender como “ revolucionários ( ainda não tinha descoberto o conceito idealista) criminosos os seus opositores monárquicos e republicanos, e se preparava para deportá-los, o REI, tranquilamente gozava os prazeres de um vida sã em contacto com a natureza e as artes: pintura, culinária e ao que parece também de alcova.

Para o desditoso Rei não foi boa nem a companhia, nem a vontade e muito menos o tipo de inteligência de João Franco, infelizmente ele, e ainda mais terrivelmente o seu filho pagaram um tão alto preço por terem apoiado João Franco que com a sua governação ditatorial tornou a monarquia mais odiosa para os republicanos, e muito despeitada, talvez mesmo, odiada por muitos monárquicos.

Andrade da Silva
02 de Fevereiro de 2008